O vizinho

Moro num prédio com poucos andares, logo com poucas famílias. Os vizinhos conhecem-se e cumprimentam-se sempre com cordialidade. Claro que não existe a disposição hospitaleira de África em que do nada se convida o vizinho ou a vizinha para passarem lá por casa e comerem um funge ou beberem umas cervejas ao som de música africana. Ás vezes sinto falta dessa componente social mas por norma, dou dois dedos de conversa e retomo à minha toca sem delongas. Tirando o casal do primeiro andar, vizinho nenhum dá-me vontade de discorrer sobre a vida ou o estado do tempo. 

Dentro deste espírito, trocava meia dúzia de palavras com um dos vizinhos mais sociáveis do prédio.O homem deve estar perto dos sessenta anos e imagino que esteja reformado. Fala e ri com toda a gente, passa as manhãs e as tardes no café e à primeira vista é o que se chama de vizinho porreiro. Sempre foi simpático e educado comigo e quando me encontrava com a B. chamava-lhe a vizinha pequena. Metia-se com ela, perguntava-lhe "vi-te a andar de patins no outro dia, já andas bem?", ou "olá vizinha pequena, estás boa?" e uma das vezes que o vimos com a cadela, disse "a ver se um dia destes brincas à vontade com a cadela". Disse isto enquanto fazíamos festas à cadela e íamos rindo da disposição brincalhona do animal. Despedimo-nos e fiquei a pensar o que queria ele dizer com aquilo. Como assim brincar com a cadela? Como é que isso aconteceria? Com hora marcada? Estava nestes pensamentos quando sou interrompida pela minha filha que me pergunta, "como assim mamã, ir brincar com a cadela?". Exacto. Como assim? Fiquei confusa e o alerta vermelho dentro da minha cabeça começou a tinir.

O alerta deu outra vez sinal numa manhã a caminho da praia. Saímos do prédio com as traquitanas e deparámo-nos com o vizinho. Dessa vez percebi que não se dirigia a mim. Falava directamente com a Bia. "Vais à praia?" perguntou ele. "Sim, vamos" respondi eu. Respondi no plural. Assumi que a pergunta era para nós. Mas não era para nós. Nunca era para nós. Era sempre para a B. O olhar dele dirigia-se sempre para a minha filha. O meu instinto surgiu em força e obrigou-me a rever todas as outras conversas e a observá-lo com atenção. Foi então que vi uma mãe com os dois filhos pequenos no café. O vizinho como sempre meteu-se com eles e percebi, da minha janela, que ela não estava à vontade.A linguagem corporal da mulher disse-me quase tudo. E ao falar com o meu marido, cuja intuição é bem maior que a minha, fiquei a saber que sempre achou o vizinho manhoso como uma raposa apesar de todo aquele trato de sociabilidade.

A gota de água aconteceu quando a B. estava com a avó num dos comércios do bairro. O vizinho entrou e dirigiu-se logo à minha filha. Segundo a minha sogra, estava eufórico e começou a fazer festas no cabelo da criança, note-se que nunca o fez antes diante da minha presença ou da do pai. A minha sogra deve ter visto este homem duas ou três vezes, por isso chegou a neta para si própria. E é então que ele diz "tens de ir lá a casa brincar com a cadela. Está lá a minha mulher, não há problema nenhum." 

Escusado será dizer que fui aos arames quando soube do acontecido e confirmei o que demorei tanto a perceber. E se tinha dúvidas, todas elas se dissiparam. A pergunta que não quer calar é porque raio um homem barbado, de cabelos grisalhos, que pouca ou nenhuma confiança tem com os pais desta criança, haveria de a convidar para sua casa? E desconstruindo o convite parece-me óbvio que a cadela é a desculpa mais fácil de se arranjar e a esposa é a confiança dada aos pais de que nada de mal poderá acontecer. Este homem claramente não me conhece ou ao meu marido.

Infelizmente demorei algum tempo a perceber as intenções deste homem. A máscara desta pessoa é o riso, a boa educação, o lado bonacheirão. Por baixo de todas estas qualidades só o diabo e os anjos saberão o que se esconde.

Faço questão de educar uma criança bem formada e para mim isso passava também por ensiná-la a cumprimentar as pessoas do nosso prédio se estas assim o fizessem. Mas depois da história com o vizinho, repenso esta minha forma de pensar. Porque ao estimulá-la a cumprimentar alguém estabelece-se ali um qualquer laço. Ténue mas não deixa de ser um qualquer laço. Que mais tarde, com os encontros na escadas do prédio, na padaria ou na rua, poderiam transformar-se em laços de confiança. Que por sua vez se traduziriam por não achar nada de errado em ter um vizinho ou vizinha a convidá-la para ir dar uma volta, ir lá a casa ou aceitar boleia a caminho da escola.

A minha filha deixou de cumprimentar este homem seguindo as minhas instruções. Perguntou-me porquê. Não pude dar-lhe uma resposta óbvia. É demasiado pequena. "É porque ele é mau, mamã?". Sim, queria dizer-lhe com as letras todas que sim mas não tenho provas para afirma-lo. Por isso disse-lhe apenas que o vizinho é apenas alguém com quem ela não deve falar. A quem não deve olhar. Alguém que não lhe deve tocar na cabeça ou noutro lado qualquer. E que um dia mais tarde iria explicar-lhe tudo mas que por agora teria de confiar em mim. 

Hoje em dia quando encontramos o vizinho, ela nem se dá ao trabalho de olhar para ele. E mostra-se orgulhosa ao dizer-me que também já não o cumprimenta. Chegámos a um ponto em que o vizinho já nada lhe diz e sequer olha para ela. Ganhei aparentemente esta batalha mas é com amargura que digo, neste campo, muitas outras ainda estarão com certeza por vir.



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