A minha doutora
Faz um ano que me iniciei em conversas de sofá com uma psicóloga. Seria bom se fosse num sofá. Daqueles macios aparentados de ninhos acolhedores em que enterramos corpo, alma e adjacentes. Não. Sento-me numa cadeira impessoal, branca, onde me aperto e à minha mochila enquanto vou fiando e desfiando os novelos da minha vida.
No primeiro dia de consulta, logo seguida pela psicóloga, entro na pequena sala, olho em redor e pergunto: "Não há sofá, doutora? À boa moda dos filmes do Woody Allen? Estava à espera de um sofázinho." A minha doutora riu-se. Respondeu-me que infelizmente era o que havia mas para tentar sentir-me confortável ainda assim. Suspirei. Sentei-me. E encolhi-me sem saber ao certo o que esperar daquela consulta.
Guardo sempre as palavras que a boa doutora me disse: "Estas consultas não são para atormentá-la. Não são para a deixarem em carne viva. Nunca a deixarei sair daqui em carne viva. Temos modos de abordar os temas de que iremos falar e temos tempo." Em carne viva nunca fiquei. Mas quantas vezes saí do consultório exaurida? De olhos vermelhos? A ponto de chegar a casa em modo cansaço e deitar-me até ao amanhecer do dia seguinte?
E quantas vezes me preocupei com a doutora por saber que os meus fantasmas em nada são etéreos? Pelo contrário. São pesados como rochas. Afiados como navalhas gastas e enferrujadas. Entrava no consultório com pena da doutora, mesmo sabendo que estudou para aquilo, que tem os seus próprios instrumentos emocionais e que já terá ouvido pesadelos diurnos contados por vozes infantis. Daqueles de se bradar aos céus.
E antes de puder expressar oralmente as minhas preocupações, olhou-me nos olhos e disse: " Não se preocupe comigo e desculpe a expressão, mas deixe comigo toda a sua merda. Aqui é o sítio indicado para o fazer." Como é meu hábito suspirei. Foi longo o meu suspiro. Disse-lhe: "Veja lá doutora...é que é mesmo muita merda"! Rimos as duas mas logo a seguir a minha doutora pôs-se séria: "Como lhe disse há bocado, não se preocupe. Eu sei o que fazer com toda a sua a merda."
Merda para limpar, aceitar e seguir em frente, plena. Pois a merda, não é nossa. 🙏😘❤️
ResponderEliminarDesculpa Nela, só vi agora o teu comentário. Tenho muita mas mesmo muita merda para limpar. A maioria despejada por mim abaixo mas estou a trabalhar nisso e a limpar tudo muito bem. Beijinhos.
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