O período

 Cresci com uma figura feminina autoritária e duas gerações mais velha que eu que me encheu o imaginário adolescente com a famigerada culpa católica embora nunca falasse de religião. Nunca me avisou sobre os fogos do inferno, criado especialmente para as almas prevaricadoras ou da mão pesada de Deus. Mas falava sobre outras coisas...

O sexo é pecado. Tabu que nunca deve ser falado. Que deve ser consumado apenas no dia do casamento. Menina decente senta com a perna cruzada e jamais assobia. Não sonha nem anda com rapazes. E a menstruação é suja, pecaminosa e tabu. Lavar o cabelo menstruada? Nem pensar! Que doideira é essa? Usar tampões? Outra doideira. Os tampões tiram-te a virgindade. Comprar pensos na mercearia? Oh senhores, um trauma! Se fosse o dono a atender então...vergonha macabra. O olhar preso ao chão enquanto guardava a famosa embalagem de Reglex no saco. Pensos famosos na altura. Grossos como almofadas e de absorção pouco confiável. Juro que carreguei comigo durante muitos anos - mulher feita já - a vergonha de os comprar. Comprar preservativos então, era o fim da picada. Hoje aos 44 anos, percebo-me enfim livre.

Tão livre que seguindo a sugestão da minha psicóloga comprámos à minha pequena o livro chamado "Período". Nunca escondi dela os meus dias menstruais. Mesmo que quisesse não conseguiria porque sofro com dores mensais e ela assiste a tudo de camarote. É uma criança curiosa. Pergunta-me sobre as dores, os pensos, os tampões, o copo menstrual, tudo! Questiona-me com que idade menstruei, porque menstruo e como será com ela. Questiona-me - porque viu no livro - os vários estados em que as mulheres se encontram antes e depois do período. Para mim é uma roleta russa e só eu e o meu marido sabemos como fico insuportável. Mas respondo a tudo. E sem vergonha. 

  O livro "Período" será o seu guia. Eu e o pai estamos abertos às suas dúvidas mas quando em intimidade, a minha pequena poderá querer aconchegar-se algures e ler, devorar tudo o que a espera. Tirando as suas próprias ilações e crescendo dentro de uma casa que a deixa ser livre. Física e intelectualmente. É criança ainda mas há-de atravessar as transformações naturais que todas nós conhecemos. Sem vergonha e livre (palavra tão linda) para algo tão natural mas que a sociedade sempre fez e faz questão de esconder. 

Porque somos sujas. Somos cobra traiçoeira. Somos pecadoras. Proíbem-nos de cozinhar quando estamos em sangue. Constroem-nos cubatas quando o nosso corpo cumpre religiosamente o ciclo da vida. Isolam-nos em loucura silenciosa para que não manchemos a tinta florescente o caminho das que ainda aí vêm. Somos amaldiçoadas. Forçam-nos a retirar o útero em nome de um trabalho miserável. Forçam-nos a retirar o útero porque esse mesmo trabalho miserável não providencia casas-de-banho. Retiram-nos o útero-terra sem consentimento enquanto deitadas inconscientes em macas de um qualquer hospital. As flores murcham ao nosso toque. E o cheiro? Cheiramos a sangue fresco. Cheiramos a sangue seco. Tresandamos a vida e tratam-nos como lixo. Como lixo, quando nada mais somos do que DEUSAS!


 

Comentários

  1. Em pleno século XXI ainda vemos coisas assim ocorrendo por aí.

    Um abraço moça.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É a triste verdade Luciano. Obrigada pela tua presença. Um abraço.

      Eliminar
  2. E o pior disto tudo é que são as mulheres a ajudar a perpetuar estes mitos e vergonhas, ao longo dos tempos. Triste. Mas Deusas, somos. 🙏

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É verdade, Nela. Há mulheres que dão uma bela assistência ao patriarcado. "Mas Deusas somos".

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares