Moçambique (1)
Esta noite, na cama, antes de adormecer, lembrei-me das (poucas) viagens que fiz pelo mundo e percebi claramente que como mulher e em terras estranhas, coloquei-me a jeito algumas vezes para potenciais situações de pouco agrado. Antes de adormecer perguntei-me, tivera eu nascido homem, será que ainda assim, sentiria medo? Será que teria passado pelas experiências sem me preocupar com o poderia acontecer? Sentir-me-ia invulnerável? Porque como mulher, sinto-me muitas vezes vulnerável. Vivi várias situações de sufoco, umas vezes porque fui descuidada e outras porque me puseram nessas situações. Felizmente, nunca nada de grave aconteceu porque o meu anjo-da-guarda (sim, ele existe), nunca me falhou.
Há uns anos estive em Moçambique. Devo dizer que Moçambique foi a viagem da minha vida. Sítio lindo, pessoas maravilhosas, comida do outro mundo... um espanto. Estive nesse belo país com uma amiga dos tempos da adolescência e decidimos viajar até Inhambane. Só as duas. Em Maputo apanhámos o maximbombo - não consigo chamar de autocarro aquilo - carregado de cestos, galinhas e pessoas sorridentes e conversadeiras. Era azul bebé e parecia estar a cair de podre mas o espírito de aventura era tanto que marimbámo-nos para o transporte e lá seguimos frescas e fofas com as nossas malas e mochilas.
Inhambane, para quem não sabe é lindo de morrer, com água azul transparente, areia branca e palmeiras a perder de vista. Convidaram-nos para ficar num resort em Tofo, largado às urtigas. Era um projecto turístico ambicioso no meio do mato, com vista para o Índico (oceano mais lindo não há) e casas com telhados de colmo. Muito bonito mas o dono daquilo, a meio do caminho abandonou tudo e raramente havia hóspedes por aquelas bandas. De tal maneira que a nossa casa estava tomada por teias de aranha e insectos rastejantes e voadores. Mas tinha o conforto de boas camas, água, wc e cozinha.
Eu e a minha amiga fomos lá parar a convite. Num dos dias fomos a outro resort lá perto para almoçar, porque ali à volta não existiam supermercados, lojinhas, nem mamãs a vender quitutes. Havia apenas uma espécie de café onde a única refeição possível era o pequeno-almoço. O Paulo, rapaz muito simpático que lá trabalhava, de vez em quando encomendava peixe fresco para nós e depois assava-o. E assim lá íamos fazendo refeições decentes. Mas este outro resort era completamente diferente daquele onde estávamos hospedadas. Era novo e bastante movimentado. Ficava praticamente em cima da água e quando demos por isso, o almoço virou lanche e o lanche virou jantar. Tinha escurecido. O caminho de volta, embora curto, era pelo mato. Um mato que mal conhecíamos. E a noite era breu. Não havia postes de iluminação. E a lua também não estava a nosso favor. Arrependi-me logo das cervejas e dos martinis que tinha bebido a tarde toda. Precisava de toda a minha lucidez para sair dali.
Antes de metermo-nos ao caminho procurei um pau e encontrei. A minha amiga mostrou-se com medo. Eu também tinha medo mas não podia deixar o medo deter-nos senão nunca mais sairíamos dali. Pus-me à frente dela, dei-lhe a mão, respirei fundo e disse-lhe para não se preocupar que íamos chegar bem ao nosso destino, bezanudas ou não. Caminhei em estado de alerta, com o pau em riste. Senti a adrenalina lá nas alturas e sabia que se aparecesse algum homem ou homens para nos atacar eu estaria pronta para dar o troco, desse por onde desse. Tanta coisa podia acontecer, pensava eu. Podíamos ser assaltadas, violadas, raptadas ou mortas. A sensação de vulnerabilidade era imensa. E o medo. O medo de aparecer um homem vindo do breu...céus. O receio de sermos capas dos jornais dando conta do nosso fim tenebroso. "Estrangeiras encontradas mortas no capim em Tofo". Não seria a primeira capa de jornal com um título desse género. Estremeço só de pensar no mal, encapotado sob as mais variadas formas. Sempre pronto a colher mais vítimas.
Embora estivesse armada até aos dentes com toda a minha coragem, aqueles dez minutos foram os mais sofridos da minha vida. Eu estava em pânico e a R. estava em pânico. Um sufoco em terras estranhas. Quando finalmente vimos as luzes do nosso resort, suspirámos de alívio e corremos a bom correr até à nossa casinha. Trancámos a porta e ficámos em silêncio durante vários minutos. Depois atirámo-nos pesadamente para as nossas camas e jurámos não voltar a fazer o mesmo.
Só que no dia a seguir, voltámos a estar numa situação estranha e aí já não estávamos sozinhas. Estávamos com dois homens mais velhos do que nós. (Continuação num outro post).
Uma verdadeira aventura na África.
ResponderEliminarUm sonho da minha vida é conhecer todos os países lusófonos.
Um abraço moça.