Monstros em disfarce
Há poucos anos, ainda a minha filha andava na creche, fomos com ela a uma consulta no nosso centro de saúde. Entrei com a pequena, fiz os procedimentos necessários e sentei-me com ela na sala de espera. Enquanto isso, o M. estacionava o carro e fumava o seu cigarrinho. Assim que me sentei, reparei num indivíduo sentado numa das cadeiras à minha esquerda. Percebi instintivamente a vibração daquele homem. Era neutra. Ele fazia por ter uma vibração neutra. Vestia um fato escuro, tinha óculos, cabelo lambido e estava um pouco acima do peso. Tinha uma pasta de negócios ao colo e dobrava-se por cima dela enquanto lia, ou fingia ler qualquer coisa no seu bloco de notas enquanto se fazia invisível. Mas eu vi-o. Por isso não me espantei quando puxou conversa. Não me lembro ao certo das perguntas que me fez. Apenas perguntas. Porque ele tentava recolher informação.
Reconhecendo o predador à minha frente, virei a B. de costas para ele. A energia deste homem não estava direccionada para mim. Era para a minha filha pequena. Ele estava a usar-me para chegar à minha filha pequena. Falava comigo sem me olhar nos olhos. Todo ele era uma expressão neutra, um escudo para a sua verdadeira natureza. Eu tinha um monstro disfarçado de homem à minha frente. Mas reconheci o monstro e curiosa como sou, dei-lhe corda, respondendo em monossílabos, não me permitindo expressar qualquer emoção ou vivacidade. Queria ver até onde ele chegaria. Viu-me sozinha com uma filha pequena nos braços num centro de saúde e tirou-me o raio-x. Mulher africana, sem aliança, filha no colo. Há-de ser mãe solteira desesperada para meter qualquer homem dentro de casa. Próximo da criança pequena que tanto deseja. Eu sei que foi este o seu pensamento.
O jogo não durou muito tempo. O M. chegou entretanto à sala de espera, dirigindo-se a mim e pegando na filha ao colo. Olhei nesse instante para o monstro e a transformação foi automática. Desapareceu por trás dos óculos e do bloco de notas. Encolheu-se como uma tartaruga dentro da carapaça e revestiu-se com o manto da invisibilidade. A chegada do meu marido apanhara-o de surpresa.
Reconheci este monstro porque estou atenta. Sei bem em que mundo vivemos. Aconteceram mais duas situações como esta. E uma delas foi com um vizinho. Essa história ficará para mais tarde.
Reconheci o monstro porque consegui olhar para além da sua forma humana. Ouvi igualmente o meu instinto - que nunca rejeito - e a tudo isto juntei informação que fui recolhendo ao longo dos anos sobre pedofilia e formas de operar.
Gostava de ter mostrado àquele monstro que não sou uma mulher vulnerável. Que a minha filha não será entregue de bandeja a monstros como ele. Que sou bem mais poderosa que qualquer monstro. Porque estou atenta e munida de informação. Estou sempre alerta e evito situações em que possa comprometer a integridade da minha filha. E é por isso que não a deixo sozinha com estranhos ou conhecidos. Nunca dorme sozinha em casa de ninguém a não ser em casa dos avós. Não a deixo sentar sozinha ao lado de estranhos nos transportes públicos. Mesmo que me digam, como já aconteceu, que tenho medo. Sim, eu tenho medo e não tenho vergonha de ter medo. Se eu for em pé, ela viaja em pé comigo. Sabe que o corpo é só dela e que ninguém tem o direito a tocar-lhe. E acima de tudo, sabe que não deve guardar segredos de espécie alguma com adultos. O silêncio, mal direccionado, é trauma que não passa. É areia movediça.
Á medida que vai crescendo vou explicando-lhe o que é ser mulher. Digo-lhe que é uma condição fantástica porque somos deusas mas faço-a compreender que é igualmente difícil. E nada mais justo que prepará-la para o que aí vem. Aprendi a duras penas o que é isto de se ser feminino quando fiz a minha transição de menina para mulher. O olhar dos homens do café da minha rua perante os meus seios em crescimento e as minhas novas formas arredondas era repulsivo.
Ela vai saber pela minha boca como se comportam os homens. Vou tentar passar-lhe instrumentos de defesa para situações difíceis e conforme acordado aqui em casa, terá aulas de luta numa academia, assim que esta pandemia terrível acabar. No mais, resta-me apenas esperar que a minha filha não engrosse a lista de crianças/mulheres abusadas e que um dia ela tenha a mesma preocupação com a sua própria cria. Seja menino ou menina.
#metoo
https://news.un.org/pt/story/2020/01/1700572
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