Brasil
Há uns anos estive no Brasil. Nunca me imaginei lá ir parar. Gosto dos países nórdicos e esses é que sempre me interessaram, curiosamente, nunca estive em nenhum. Mas na altura vivia em Angola e escrevia e traduzia para uma plataforma internacional cujo lema era dar voz aos que não a têm. Por causa desse trabalho pude ir ao Chile encontrar-me com outras pessoas, vindas de todo o mundo, que trabalhavam também para a plataforma. E aproveitei a viagem ao Chile para dar um pulinho de quinze dias no Brasil. Já que estava na América do Sul, porque não conhecer a cidade maravilhosa - e que maravilhosa é - e visitar uma amiga de há anos que na altura vivia no Recife? Assim pensei, assim o fiz.
O Chile nunca foi um sonho mas aproveitei ao máximo a oportunidade que me foi dada e ali senti o sol abraçar-me tal como o fizera com Pablo Neruda anos antes. Pude também conhecer a casa do poeta, plantada à beira-mar, rodeada de vegetação e vestida de azul água com apontamentos marinhos por todos os cantos da casa. Conchas, barcos, peixes...nas paredes, nas mesas, no pátio...simplesmente delicioso. E no esplendoroso Chile deixei-me ficar, sentindo-me grata pela oportunidade de estar na terra tão amada de Isabel Allende, minha escritora favorita e com quem tantas e tantas vezes viajei através das suas histórias mágicas de fantasmas e revoluções.
Mas este texto não é sobre roteiros turísticos. É sobre a minha experiência de viajar por países estrangeiros sendo mulher. E questionar-me do porquê de não puder ser totalmente livre para viajar sem medos. Sem a preocupação de ter algum homem a querer beneficiar da minha condição de mulher. Nunca me aconteceu nada de grave, ao contrário das duas raparigas escandinavas mortas em Marrocos. Mas consigo reconhecer os episódios no estrangeiro onde as coisas podiam ter corrido mal. Como no avião a caminho do Chile em que fui abordada por um americano bonitão e super simpático que até se aperceber dos meus dois companheiros de viagem achava que me tinha no papo e que ia dizer-lhe o nome do hotel onde iria ficar hospedada, só porque sim. E que chegada e instalada no Chile, insistia em ir ter comigo ao hotel, só porque sim. E não, ele não estava nada interessado nos meus belos olhos castanhos. Mas esta história ficará para outra oportunidade.
Uma mulher não se pode dar ao luxo de viajar sozinha? Ou com outras mulheres? E quando viajamos temos de estar sempre em alerta? Porquê?
As férias corriam bem no Brasil. Já tinha ido ao Chile, já tinha estado vários dias no Rio de Janeiro e sinceramente, cidade mais linda não há, quando decidi que estava na altura de ir até ao Recife no estado de Pernambuco visitar a minha amiga. Achei-me sortuda por conhecer alguém a viver por aquelas paragens tão próximas de Olinda e Porto de Galinhas, destinos com que sempre sonhei e pude visitar. Como já estava farta de andar de avião, em quase semana e meia apanhei quatro aviões, logo eu que tenho medo dos pássaros de metal, achei por bem fazer o percurso Rio de Janeiro/Recife de camioneta. Quando notifiquei os meus amigos brasileiros desta decisão, a contestação foi unânime: eu estava louca. "Tu és mulher. E ainda por cima estrangeira. Vais mesmo sozinha?", perguntaram-me.Disseram-me várias vezes que as estradas brasileiras são terríveis. Que bandidos poderiam fazer emboscadas e saquear os passageiros. Que não se pode confiar nos motoristas. E todos me perguntaram "porque não apanhas o avião que é bem mais rápido e bastante mais seguro?". E a todos respondi que é mais fácil para mim cortar a minha própria cabeça do que mudar de ideias e que para além disso, estava saturada de aviões, especialmente depois do susto pavoroso que tive quando o avião em que seguia, ao sobrevoar a Cordilheira dos Andes, sacudiu tanto mas tanto, que julguei ter o mesmo fim trágico da equipa de rugby andina quarenta e oito anos antes. Horas mais tarde vim a saber que foi uma sorte o passarão não ter ido abaixo, visto que a companhia que nos transportou era das piores na América do Sul e estava em vias de extinção.
Uma das outras razões para insistir no caminho terrestre foi a grande vontade de atravessar o Brasil e vê-lo com olhos de ver. Lá em cima do avião não se vê nada. Do Rio de Janeiro ao Recife é praticamente um dia de viagem. Usei esse tempo para encher a minha imaginação com o Brasil de Jorge Amado, Érico Veríssimo e João Gilberto. O Brasil lindo de morrer, carregado de história, encantamento e morte. O Brasil de vegetação luxuriante e casas coloniais à saída do Rio de Janeiro, ao Brasil desértico, quente e assombrado dos estados mais a norte. Eu vi estes contrastes da janela da camioneta e não me arrependo da decisão. Mas a viagem foi realmente longa. Felizmente o ar-condicionado tinia e eu ia metida com os meus próprios pensamentos e não abria a boca para nada. Nem mesmo quando um homem, do nada, me ofereceu doces. Arregalei os olhos porque não estava à espera e limitei-me a acenar negativamente com a cabeça. Não queria que o meu sotaque me denunciasse. Não queria troca de palavras com um estranho. Queria passar despercebida, sendo só uma passageira. Queria passar despercebida porque estava bem ciente do que sou: mulher.
Finalmente a camioneta chega ao seu destino, São Salvador da Baía. Era começo da noite e estava escuro. Achei que teria ligação imediata para o Recife mas enganei-me redondamente quando o motorista me disse que autocarro só no dia seguinte. Aquilo foi um murro no estômago. Fiquei sem ar e danada comigo mesma por mais uma vez, ter feito as coisas à maluca. O motorista disse-me, "você não pode ficar aqui sozinha na rodoviária, tem para onde ir?", respondi que não. Ele continuou, "tem um hotel aqui do lado, você pode ficar por lá." Nisto, fez sinal a um homem com um carrinho de mão e instruiu-o para me deixar no hotel em segurança. Eita, pensei eu, o que se está a passar? Tive poucos minutos para avaliar a situação, para avaliar aqueles dois homens. Mas algo naquelas duas pessoas fez-me acreditar que ia correr tudo bem pese embora o estado de alerta estivesse no máximo. Despedi-me do motorista agradecendo e fixei o olhar naquele homem baixinho com um carrinho de mão. Ele mal olhava para mim quando apontou para a placa que levava no peito e disse-me com toda a dignidade possível, "o meu nome é este aqui da placa, faço este tipo de serviço muitas vezes, sou de confiança."
Entre passar a noite sozinha na rodoviária e ir acompanhada até ao hotel por um estranho, tive de optar pela última. Saímos e tinha escurecido. Conseguia ver o néon com o nome do hotel à distância. O caminho foi feito pela berma da estrada e estava pobremente iluminado. Deixei-o ir à minha frente com o seu carrinho de mão e a minha enorme mala roxa lá dentro. A acontecer alguma coisa, voltaria para trás a correr e deixá-lo-ia ficar com os meus pertences que de materialista tenho pouco. Ao mesmo tempo ia olhando para todos os lados assegurando-me que estávamos ali só os dois. Iam passando carros com frequência e se o inesperado acontecesse, atirar-me-ia sem pensar para o meio da estrada. Queria estar concentrada no facto de estar na Baía, onde séculos antes, homens e mulheres de África aportaram em susto para se tornarem escravos. Queria sentir-me feliz por estar num local saturado de energia negra, com os seus cânticos, as suas vestes e a sua celebrada cozinha. Mas tive de afastar os pensamentos e concentrar-me naquela estrada, naquele homem, naquele hotel onde poderia sacudir o cansaço e ter-me em segurança.
Mais uma vez senti o peso da minha condição feminina. Se fosse homem, teria o motorista me dito que não poderia ficar no terminal da rodoviária sozinha? Se fosse homem, teria o motorista chamado o carregador de malas para me acompanhar até ao hotel em segurança? Se eu fosse homem, teria sentido apreensão naquela berma de estrada, à noite, com outro homem?Se fosse homem, teria tanto medo?
O hotel ficava realmente perto. O homem do carrinho de mão era só o homem do carrinho de mão. Levou-me em segurança para o hotel e retribuí com dinheiro e um sentido obrigado. Fiz o check-in, entrei no quarto, tranquei-o, tomei banho, pedi o jantar e deitada na cama agradeci ao Universo por não ter sido apanhada na curva. Antes de adormecer tive de avisar toda a gente que chegara bem e que tudo estava bem. E mais uma vez, todos me chamaram de maluca. Na manhã seguinte quando acordei pensei que seria boa ideia ir até ao centro de Salvador. Não queria desperdiçar a oportunidade e ainda tinha tempo até apanhar a camioneta para o Recife. Estava empolgada quando do nada, surgiu-me o pensamento para ficar sossegada no hotel e só sair na hora certa, direitinha para a camioneta. Decidi respeitar o pensamento e assim o fiz. Hoje sei que era o meu anjo da guarda a aconselhar-me. A viagem para o Recife correu bem e na rodoviária, à minha espera, estava a minha querida amiga. Escusado será dizer que no regresso ao Rio de Janeiro, apanhei o avião. Para além de mim e meia dúzia de gatos pingados a ilustre Elba Ramalho dava o ar da sua graça com aquele cabelão só dela, pelos corredores do avião.
Recordo este episódio actualmente sob outra perspectiva. Agora sou mãe e a ideia da minha filha se pôr nestes assados num país estrangeiro, famoso pela sua beleza e também violência, deixa-me doente. Como mulheres estamos mais vulneráveis à maldade do bicho homem. Não me aconteceu nada mas poderia ter acontecido. Viajar por um país estrangeiro, sendo mulher, onde todos os dias via na televisão relatos pavorosos de violência é de assustar. Foram umas excelentes férias, mas sentia a vulnerabilidade feminina constantemente. Senti-a em Londres, em Paris, em Luanda, em Moçambique, no Chile e sinto-a aqui, no meu país. Para onde quer que vá, está presente. Gostava de ser homem por um mês. Como será não ter medo de ser-se o que se é?
Oi Clara. Possivelmente o motorista diria a mesma coisa see foste homem. À noite as capitais brasileiras não são seguras pra ninguém. Que bom que tenhas aproveitado bem sua passagem pelo Brasil. Conheci o Recife e Porto de Galinhas no ano passado. Este ano se a situação deixar irei a Salvador conhecer um pedaço da Bahia.
ResponderEliminarQuanto a sua miúda, ponha-a em uma aula de defesa pessoal o quanto antes, não resolve, mas ajuda. Além disso tenho certeza que vocês dois saberão educá-la pra se virar bem no mundo.
Texto delicioso.
Um abraço moça.
Vou pô-la sim! E ela tem imenso interesse nisso, o que facilita bastante. Beijinhos, Luciano.
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