O americano bonitão

Como escrevi num outro post, estive no Chile, mais precisamente em Santiago. Até hoje não sei bem como descrever aquele país ou aquelas gentes. O que mais recordo, para além do americano bonitão, é da comida. Barata, deliciosa e muito bem composta no prato. A tal ponto que muitas vezes tive de deixar comida. Logo eu, bom garfo que sou. Recordo-me da histórica Praça de Armas, cercada por várias esplanadas e monumentos - infelizmente não pude visitar nenhum- do calor, de um jardim maravilhoso a que fui, completamente tropical e claro, da maravilhosa casa de Neruda que tive o privilégio de visitar. (Ler post Brasil). Esta última é o que mais me lembro daquela viagem e o que mais gostei. À distância, a minha ida ao Chile parece um sonho no sentido em que a memória está como neblina. Mas lembro-me dos bares, do hotel, dos risos e da fabulosa e livre sensação de me sentir cidadã do mundo.

Fui do Brasil ao Chile com dois colegas brasileiros que conheci através da plataforma para onde escrevia e traduzia. Cheguei a dormir alguns dias na casa da tia de um deles situada na periferia do Rio de Janeiro. Para chegar ao centro do Rio como o vemos nos cartões postais, partindo da periferia, o suplício do trajecto era demasiado. Muito comboio e muito metro. E muitíssimo calor. Foi numa dessas viagens que descobri que os comboios tinham um vagão só para mulheres quando o meu colega/amigo me perguntou se não preferia ir num desses vagões. O assédio ao ser feminino é tão brutal que houve necessidade de se criar um espaço só para mulheres. Isto é assustador. Mas disse que não e segui num vagão normal bem agarrada ao meu amigo porque também não me apetecia perder-me numa cidade enorme como o Rio indo para outro vagão.

No Rio apanhei um avião até ao Uruguai onde fiz escala. Felizmente tinha dois companheiros para me entreter em conversa e riso. E de lá apanhámos outro avião para Santiago. Sentei-me sozinha num dos bancos, saquei o meu livro da mochila e comecei a ler esperando que o avião se portasse bem. Quando dou por mim, estou a ser interpelada por um americano. E bonito como a tentação. Sem dar por isso lá estava ele sentado à minha beira. Sinto os calores porque é mesmo bonito e simpático.Que é professor numa universidade em Santiago. E como me chamo? Onde moro? E o que vou fazer ao Chile? Oh, temos de nos encontrar quando tiveres tempo livre, continua o bonitão. E eu babada. E ele pergunta-me em que hotel vou ficar. E o alarme dentro de mim começa a apitar e olho para além de toda aquela beleza e simpatia. Recuo na conversa e respondo que não sei. Pois que o nome é em espanhol e sou péssima na língua de nuestros hermanos. Fiz-me de tonta e num ápice o bonitão tira-me o livro da mão e aponta o contacto dele. Apeteceu-me bater-lhe porque achei que foi atrevido já que sou muito ciosa com os meus livros. Conversámos mais um pouco, dei-lhe o meu e-mail e as perguntas continuaram. O que faço da vida? Se tenho filhos. O bonitão averiguava. Deixo-o a falar sozinha e dirijo-me aos meus companheiros de viagem sentados no banco ao lado. Quis mostrar-lhe que não estava sozinha e o bonitão não conseguiu esconder o espanto. Levanta-se, diz que tem de voltar para o seu lugar e ficámos assim. Os meus companheiros olharam para mim e começaram a gozar comigo. Ehhh, você está com a bola toda hein, Antónia? Coisas do genéro e a risada continuou às minhas custas até o avião começar a chacoalhar.

Escrevo chacoalhar porque não existe palavra melhor. O passarão não sacudiu, não abanou. Chacoalhou. E foi a valer. Já tinha passado por turbulência noutros voos mas aquela foi demais.Estava crente que ia morrer. O avião estava convulsivo e eu agarrava-me ao livro como se fosse a minha salvação. Não rezei porque era descrente, não revi a minha vida porque estava em sobressalto embora quisesse manter-me tranquila. Mas de que adiantaria a calma se nos despenhássemos? Ouvi o comandante dizer aos passageiros para se manterem tranquilosvporque estávamos a sobrevoar a Cordilheira dos Andes e era normal a turbulência. A Cordilheira, pensei eu. Onde quarenta oito anos aquelas pobres almas se despenharam. Algumas morreram e os poucos que sobreviveram tiveram de comer a carne dos falecidos. Imaginei-me naquelas montanhas pesadelo, no meio da fuselagem com roupa de Verão. Carne humana? Ó porra. Olhei para os meus companheiros. Um dormia ferrado e o outro ouvia música como se estivesse numa igreja. Não estás com medo, perguntei. Ele disse-me que não. Que era só turbulência. Então passei os minutos ou segundos sei lá, a olhar para ele. Como se a absorver toda aquele estado zen.

Chegámos vivos e ficámos a saber mais tarde que a companhia que nos levara ao Chile era a pior da América do Sul, que os aviões estavam a cair aos pedaços por falta de manutenção. Saber isto foi tão refrescante como atirar-me para uma piscina com cinco metros de profundidade sem saber nadar. Despedi-me do bonitão no aeroporto. Disse-me para entrar em contacto com ele quando pudesse. Não o fiz. Por isso de vez em quando lá encontrava um email do americano a marcar encontro mas eu mal tinha tempo para me coçar. Até que num dos meus últimos dias por lá, disse-me que ia ter comigo. Que lhe dissesse o nome do hotel e o número do meu quarto. Respondi que não ia dar para nos encontrarmos no hotel. Estava de saída para a farra. Ia andar de bar em bar a entupir-me de pisco sour. Perguntou-me quando deixaria o Chile e insistiu para ir ter comigo ao hotel. Se quiseres, vai ter comigo à zona dos bares. Vou estar por lá com todo o meu pessoal, disse-lhe eu. Ele respondeu-me que não lhe dava jeito e voltou a insistir no hotel e no número do meu quarto. Para que queria ele tanto o nome do hotel e o número do meu quarto? Estou certa que não era para estarmos unidos em conchinha. E porque recusava-se a estar comigo e com o meu exército? A insistência foi muita. Andámos nisto uns trinta minutos.

Mandei-o bugiar. Não há cá nomes de hotel e muito menos números de quartos. Se quisesse mesmo estar comigo ele saberia onde encontrar-me. Disse-lhe isto tudo. E ele não me respondeu mais.Achou que desta vez não iria conseguir o que queria. Posto isto, cheguei à conclusão que embora a beleza fosse bem real, a simpatia era só uma máscara para as suas péssimas intenções. O bonitão queria-me sozinha, no meu quarto de hotel para ter acesso às minhas coisas. Roubo? Drogas? Tráfico sexual? Temos de pensar em todas as hipóteses. Quem não sabe de histórias destas? Quem nunca viu o filme "Taken"? Não é só um filme. É o retrato do que acontece a milhares de mulheres em todo o mundo. A imagem de um homem bonito, estrangeiro a abordar uma viajante sozinha em país estranho, a seduzi-la com toda a simpatia do mundo...é fácil demais. Eu não conhecia aquele homem de nenhum lado para dar-lhe acesso à minha intimidade. E embora me tenha derretido com aqueles olhos e com a sua simpatia, eu estava apenas a conhecer uma pessoa nova. Não estava à espera de nada demais. Senão de uma possível amizade. Mas não era isso que o bonitão me queria dar.

https://news.un.org/pt/story/2019/01/1657422


 

Comentários

  1. Aiaiaiai. Esse mundo paranoico as vezes nos faz perder oportunidades.
    Eu brinco. Falo assim mas também morro de medo.
    E se ele estivesse a fim mesmo. Ia no bar e depois quem sabe né.

    Prosa deliciosa.

    Um abraço moça.

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  2. Aiaiaiai. Esse mundo paranoico as vezes nos faz perder oportunidades.
    Eu brinco. Falo assim mas também morro de medo.
    E se ele estivesse a fim mesmo. Ia no bar e depois quem sabe né.

    Prosa deliciosa.

    Um abraço moça.

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    1. Não Luciano, não foi paranóia. Sei ler bem as pessoas. As energias que cada pessoa emana e bastante legível. Basta estar atenta. Abraços.

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