De ser mulher e outras coisas...

Sempre me considerei sortuda por não me ter calhado em sina, nascer ou viver num país como o Irão ou o Paquistão onde os direitos das mulheres não existem. Não me imagino sem as minhas prerrogativas ou enfiada dentro de uma burka bafienta o dia todo. Com a personalidade que tenho imagino que acabaria morta ou fugida para outro país a duras penas. Por isso sinto-me feliz por viver num país europeu que amo até à exaustão. Que me viu crescer e tornar mulher. Que me permite conduzir, namorar à vontade na rua, votar, estudar, trabalhar, viajar e por aí fora. Sinto-me feliz até pensar na minha condição de mulher e entender que não sou assim tão livre.

Não ando de burka - aquela coisa negra horrorosa que cobre a mulher de cima abaixo que a transforma em sombra - mas também não posso andar de mini-saia, não posso usar calções (sejam pelo joelho ou a verem-se as bordas das nádegas), decotes muito fundos, t-shirts justas que desenham com perfeição o contorno dos seios e por aí fora. Quer dizer, poder posso. Vivo num país que mo permite. Mas se saio de casa dessa maneira já sei que vou ter de enfrentar olhares manhosos de homens nojentos. Se podem olhar, claro. Eu também olho se vir um homem lindo mas, existe o olhar que nos despe e violenta e o olhar que nos galanteia. São duas coisas diferentes. Seja como for, está provado que de decote ou tapada até às orelhas é indiferente. Eles observam-nos e comem-nos em pensamento. Como se fossemos um hamburguer suculento a que eles têm direito. Somos um alvo constante. A nossa vagina, os nossos seios e formas arredondadas retiram-nos a liberdade. Tenhamos nós, doze, quarenta ou oitenta anos.

Se quiser sair à noite posso fazê-lo mas sei que tenho de tomar as minhas precauções. Se me embebedar não posso estar sozinha. Se apanhar um táxi tenho de anotar a matrícula ou as amigas fazem-no por nós. Se estiver na rua, tenho de ter cuidado não vá saltar da esquina um malfeitor. Sei que não posso ouvir música porque preciso estar atenta aos sons. E vou sempre no meio da estrada ampla, onde passam carros a quem possa pedir ajuda se necessário for. E também sei que tenho de desviar de caminhos mal-afamados e não fazer contacto visual com homem nenhum que se cruze no meu caminho. Tenho que ter toda uma preparação mental para me dar ao luxo de uma noitada com amigas. Só que já é tão natural fazê-lo que nem me dou conta.

Eis um exemplo ilustrativo. Uma colega vendeu-me há tempos um spray com gás pimenta. A embalagem é linda. Passa por batom ou por um frasco de perfume. Tinha-o sempre na mão a caminho do trabalho. Isto às sete da manhã em pleno Inverno, antes das ruas se encherem de gente. Nunca foi preciso usar. E nem sei como reagiria se a situação ocorresse.  Ás vezes via uma das minhas colegas passar a caminho do trabalho também. Levava sempre uma das mãos nos bolsos e perguntei-lhe porquê. Ela disse-me que nessa mão levava uma faca de cozinha para o caso de algum homem se meter com ela. Nós as duas, a caminho do ganha-pão e preocupadas em sermos assaltadas ou coisa pior. Somos livres? Porra, não.

Aos doze anos começaram a crescer-me os seios e ficaram grandes. Quando passava pelo café da minha rua, os homens olhavam para mim com lascívia. Como se eu fosse mulher feita. Apesar da minha ingenuidade conseguia entender aqueles olhares pedófilos. Comecei a vestir t-shirts largas para dissimular a minha recém-feminilidade e puder passar por eles sem me sentir embaraçada. Não eram eles os embaraçados. Homens feitos a devorarem uma criança de doze anos e era eu que me sentia embaraçada. Os porcos riam-se e eu corava. Vinte e tal anos depois, ainda me sinto intimidada se tenho de passar por um café povoado de homens. Prefiro muitas vezes alterar a minha rota. Esta é uma das minhas marcas. Cada mulher terá a sua. Tive vergonha dos meus peitos até muito tarde e a vergonha é uma prisão. Impede-nos de fazer imensas coisas, de nos sentirmos plenas e confiantes.

Vivo num país livre mas retiram-nos todos os dias o que apenas a nós pertence. E é assim desde que nascemos. Algumas crianças são violentadas, raptadas, maltratadas pelos pais. As que chegam à adolescência sãs e salvas têm de lidar com olhares provocadores de homens de barba rija. E as mulheres feitas têm de lidar com as discrepâncias salariais, com a sobrecarga da vida profissional e doméstica e com todas as exigências inerentes à sua condição de mulher. Retiram-nos o sol sendo nós o sol. E passamos toda uma vida lutando para o recuperar.



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